A família é a unidade responsável pela protecção, educação e desenvolvimento integral da criança. Várias
crianças desamparadas saíram de suas casas devido aos maus tratos da família, e
encontram a paz na rua. O dia internacional de crianças vítimas de agressão (4
de Junho) é um dia de comemoração, mas de reflexão sobre o relacionamento da
criança com sua família.
A agressão verbal surge a partir do relacionamento entre
a mãe e a criança aos três a quatro anos de idade. Nesta fase, a criança torna-se
irrequieta e desobediente. Em psíqui-análise, este comportamento é considerado
positivo, uma vez que, é a fase da descoberta do meio circundante da criança.
Ela cria uma imagem positiva da mãe, começa a ter muitos desejos, torna-se muito
exigente e vê sua progenitora como a única pessoa que pode satisfazer sues
desejos.
Segundo Adilson Valdo Muthemba, psicólogo infantil, da
Universidade Pedagógica, a agressão verbal pode levar a criança à frustração e
quebra de desejos e bom relacionamento da sua mãe. «Há uma série de imaginação
e desejos frustrados. A criança percebe que a mãe que havia criado em sua mente
não existe. Mais tarde, isso pode ter consequências graves na fase adulta da
criança»
A agressividade chega a um extremo grave, quando a
própria mãe, aquela que a criança via
como pessoa que satisfazia desejos
pontuais, a agride fisicamente. A criança começa a considerar sua própria mãe adversária.
«Toda aquela ideia que a criança tinha criado de mãe boa começa a desaparecer.
A criança pode estar a brincar com suas amigas, mas quando chega a mãe fica
reprimida», explicou. Em consequência disso, a criança começa a ambicionar e
elogiar relacionamentos de outras crianças
e suas mães, porque, sente-se uma criança com «desejos perdidos ou frustrados».
Criança
que procura desejos perdidos
Na fase da adolescência, 14 aos 16 anos, a criança procura
reeditar os comportamentos de uma criança frustrada em outras, na medida em que,
procura se auto-afirmar diante dos amigos. «Para destacar-se perante os outros
procura uma exibicao muscular, etc. É uma fase avançada da agressão», afiançou.
Pode ainda verificar-se casos de crianças que estão à
busca de desejos perdidos. Muitas vezes, estas crianças tendem a ser muito
calmas, isoladas, não procuram destacar-se diante dos outros, mas procurando o
carinho que não lhe foi dada na infância. «»
Criança
que cresce com sua mãe e outra com a madrasta
Segundo a Teoria de Vínculo, em Psicologia Infantil, o ideal é que uma criança que cresce
com a mãe biológica pode ser menos agressivo e obediente. E, cria muita
expectativa em relação aos cuidados
dos pais. Quando os pais quebrarem a expectativa, ela tende a ficar frustrada Se a mãe for agressora, e
entrar numa sala de aulas onde há uma professora a dar aulas, a probabilidade
dele ter resultados negativos é maior porque pode transportar a imagem da sua
mãe». Entretanto, na realidade moçambicana, a criança que vive com os tios ou
madrasta faz muito esforço para ser muito sucedida na vida. «Às vezes a criança
não se percebe», disse.
Consequências
de maus tratos da família
Em psicologia infantil, a criança que sofreu agressões
pode ser agressiva no meio de grupo escolar, desenvolve ideias agressivas e
mostra tendências de revolta consigo mesmo ou com os outros devido aos desejos
perdidos. A agressão verbal é a «mais perigosa». Para o psicólogo, este tipo de
agressão cria «feridas invisíveis» na criança, pelo que, um bom relacionamento
entre a criança e a mãe. Deve haver uma protecção, mas não exagera da criança.
«Numa apresentação, na sala de aulas, o estudante crítica
arduamente a apresentação do trabalho dos colegas, sem dizer aspectos
positivos. Pode ser um caso de reeditar sua experiencia da infância», explicou.
Quando
a rua torna-se o único lar da criança
No entanto, a criança de tanto ser vítima ou objecto de
agressão, sai à rua a procura do outro lar onde possa sentir-se bem, porque a
casa é onde se verifica a «guerra». A criança sai de casa num cenário muito
agressivo e chega à rua e integra-se a um grupo. «As crianças que param na rua
muitas vezes é porque são acusadas de roubo, desobediente, vive com a madrasta
ou tios que não a tratam bem», disse o académico, acrescentando ainda que,
quando isso acontece «nessa situação de agressão infantil faz-se um trabalho árduo
com a família, e não com a criança».
Reintegração
da criança de rua
Quando as pessoas vêem uma criança de rua nem sempre
devemos impor a criança voltar ao seio familiar, se é o promotor de agressão.
Trabalhamos com a família e oferecemos as diversas escolhas para reintegrar a criança
ao seio familiar. Há crianças que vão a rua por influência de amigos ou por
trabalhos pesados.
Apesar dos esforços em prol do bem-estar
das crianças, a situação continua sombrio no país. Cerca de três mil crianças
vivem nos centros de acolhimento. Vários
são os motivos que as levam crianças à rua.
«Vivo
na rua e sofro de asma»
Alfredo Alfeu Mastelo, de 14 anos de idade, nasceu na
província de Inhamabane e vivia com seu avô. Em 2010 saiu para viver junto do
seu pai e madrasta, em Namaaacha, província de Maputo. Começou escola muito
tardiamente. Alfredo tem apenas 1 classe. Diz ele que um dia sonhara ser
Piloto, mas não descura a possibilidade de um dia conseguir conquistar o
almejado sonho. No mesmo ano, 2010 saiu de casa dos seus pais devido a maus
tratos para viver na rua. Conheceu um amigo que o levou para um centro de
acolhimento. Actualmente a vida resume-se em pedir esmola.
Acson Luís, de 25 anos de idade, natural da Zambézia. Em
2013 abandonou seus pais por influência de amigos. Quando chegou a capital,
Maputo, Acson espera um emprego, mas a sorte não lhe «bateu a porta» até que
viu-se forcado a viver na rua por não ter família, em Maputo. Ascon Luís sofre
de asma e conta que, por falta de dinheiro, nunca se dirigiu ao centro de
saúde. «Não tenho dinheiro para ir ao hospital. Costumo pedir às pessoas que
passam daqui», disse, desesperadamente.
Papel
dos Centros de acolhimento
O Centro de Acolhimento da Massana alberga cerca de 50
crianças de rua. O número varia, uma vez que, sempre recebe novas crianças de
rua. O centro tem crianças que ali frequentam por diversos motivos. O centro
tem objectivo principal que é a reintegração das crianças nos seios familiares.
Das 7 as 14 as crianças encontram um espaço onde lavam a roupa, alimentam-se e
aprendem. Segundo Isilda da Cristina Mazuzi, professora do centro, as aulas
dependem muito dos alunos. «Há dias que estão bem e outros que não», afirmou.
O ensino de alfabetização vai da primeira a quinta
classe. Quando a criança termina o ciclo volta a frequentar o primeiro. A falta
do apoio do Ministério de Educação, em relação ao material didáctico, dificulta
o ensino a progressão daquelas crianças. Segundo a fonte, o centro já reiterou
muitas crianças as suas casas, mas as vezes voltam para o centro. «Nós tentamos
explicar as crianças para não pensarem que o centro é uma família definitiva. Muitos»,
disse. A Lei de Promoção e Protecção dos
Direitos da Criança, à semelhança do preconizado na Convenção dos Direitos da
Criança e na Carta Africana dos Direitos e Bem-estar da Criança, enfatizam a
questão da violência física e psicológica como um atentado contra a
sobrevivência e bem-estar da criança. Apesar dos esforços em prol do
bem-estar das crianças, a situação continua sombrio no país.

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