segunda-feira, 9 de junho de 2014

Crianças vítimas de agressão


A família é a unidade responsável pela protecção, educação e desenvolvimento integral da criança. Várias crianças desamparadas saíram de suas casas devido aos maus tratos da família, e encontram a paz na rua. O dia internacional de crianças vítimas de agressão (4 de Junho) é um dia de comemoração, mas de reflexão sobre o relacionamento da criança com sua família.
A agressão verbal surge a partir do relacionamento entre a mãe e a criança aos três a quatro anos de idade. Nesta fase, a criança torna-se irrequieta e desobediente. Em psíqui-análise, este comportamento é considerado positivo, uma vez que, é a fase da descoberta do meio circundante da criança. Ela cria uma imagem positiva da mãe, começa a ter muitos desejos, torna-se muito exigente e vê sua progenitora como a única pessoa que pode satisfazer sues desejos.
Segundo Adilson Valdo Muthemba, psicólogo infantil, da Universidade Pedagógica, a agressão verbal pode levar a criança à frustração e quebra de desejos e bom relacionamento da sua mãe. «Há uma série de imaginação e desejos frustrados. A criança percebe que a mãe que havia criado em sua mente não existe. Mais tarde, isso pode ter consequências graves na fase adulta da criança»

A agressividade chega a um extremo grave, quando a própria mãe, aquela que a criança via como pessoa que satisfazia desejos pontuais, a agride fisicamente. A criança começa a considerar sua própria mãe adversária. «Toda aquela ideia que a criança tinha criado de mãe boa começa a desaparecer. A criança pode estar a brincar com suas amigas, mas quando chega a mãe fica reprimida», explicou. Em consequência disso, a criança começa a ambicionar e elogiar relacionamentos de outras crianças e suas mães, porque, sente-se uma criança com «desejos perdidos ou frustrados».
Criança que procura desejos perdidos
Na fase da adolescência, 14 aos 16 anos, a criança procura reeditar os comportamentos de uma criança frustrada em outras, na medida em que, procura se auto-afirmar diante dos amigos. «Para destacar-se perante os outros procura uma exibicao muscular, etc. É uma fase avançada da agressão», afiançou.
Pode ainda verificar-se casos de crianças que estão à busca de desejos perdidos. Muitas vezes, estas crianças tendem a ser muito calmas, isoladas, não procuram destacar-se diante dos outros, mas procurando o carinho que não lhe foi dada na infância. «»
Criança que cresce com sua mãe e outra com a madrasta
Segundo a Teoria de Vínculo, em Psicologia Infantil, o ideal é que uma criança que cresce com a mãe biológica pode ser menos agressivo e obediente. E, cria muita expectativa em relação aos cuidados dos pais. Quando os pais quebrarem a expectativa, ela tende a ficar frustrada Se a mãe for agressora, e entrar numa sala de aulas onde há uma professora a dar aulas, a probabilidade dele ter resultados negativos é maior porque pode transportar a imagem da sua mãe». Entretanto, na realidade moçambicana, a criança que vive com os tios ou madrasta faz muito esforço para ser muito sucedida na vida. «Às vezes a criança não se percebe», disse.
Consequências de maus tratos da família
Em psicologia infantil, a criança que sofreu agressões pode ser agressiva no meio de grupo escolar, desenvolve ideias agressivas e mostra tendências de revolta consigo mesmo ou com os outros devido aos desejos perdidos. A agressão verbal é a «mais perigosa». Para o psicólogo, este tipo de agressão cria «feridas invisíveis» na criança, pelo que, um bom relacionamento entre a criança e a mãe. Deve haver uma protecção, mas não exagera da criança.
«Numa apresentação, na sala de aulas, o estudante crítica arduamente a apresentação do trabalho dos colegas, sem dizer aspectos positivos. Pode ser um caso de reeditar sua experiencia da infância», explicou.
Quando a rua torna-se o único lar da criança
No entanto, a criança de tanto ser vítima ou objecto de agressão, sai à rua a procura do outro lar onde possa sentir-se bem, porque a casa é onde se verifica a «guerra». A criança sai de casa num cenário muito agressivo e chega à rua e integra-se a um grupo. «As crianças que param na rua muitas vezes é porque são acusadas de roubo, desobediente, vive com a madrasta ou tios que não a tratam bem», disse o académico, acrescentando ainda que, quando isso acontece «nessa situação de agressão infantil faz-se um trabalho árduo com a família, e não com a criança».
Reintegração da criança de rua
Quando as pessoas vêem uma criança de rua nem sempre devemos impor a criança voltar ao seio familiar, se é o promotor de agressão. Trabalhamos com a família e oferecemos as diversas escolhas para reintegrar a criança ao seio familiar. Há crianças que vão a rua por influência de amigos ou por trabalhos pesados.
Apesar dos esforços em prol do bem-estar das crianças, a situação continua sombrio no país. Cerca de três mil crianças vivem nos centros de acolhimento. Vários são os motivos que as levam crianças à rua.
«Vivo na rua e sofro de asma»
Alfredo Alfeu Mastelo, de 14 anos de idade, nasceu na província de Inhamabane e vivia com seu avô. Em 2010 saiu para viver junto do seu pai e madrasta, em Namaaacha, província de Maputo. Começou escola muito tardiamente. Alfredo tem apenas 1 classe. Diz ele que um dia sonhara ser Piloto, mas não descura a possibilidade de um dia conseguir conquistar o almejado sonho. No mesmo ano, 2010 saiu de casa dos seus pais devido a maus tratos para viver na rua. Conheceu um amigo que o levou para um centro de acolhimento. Actualmente a vida resume-se em pedir esmola.
Acson Luís, de 25 anos de idade, natural da Zambézia. Em 2013 abandonou seus pais por influência de amigos. Quando chegou a capital, Maputo, Acson espera um emprego, mas a sorte não lhe «bateu a porta» até que viu-se forcado a viver na rua por não ter família, em Maputo. Ascon Luís sofre de asma e conta que, por falta de dinheiro, nunca se dirigiu ao centro de saúde. «Não tenho dinheiro para ir ao hospital. Costumo pedir às pessoas que passam daqui», disse, desesperadamente.
Papel dos Centros de acolhimento
O Centro de Acolhimento da Massana alberga cerca de 50 crianças de rua. O número varia, uma vez que, sempre recebe novas crianças de rua. O centro tem crianças que ali frequentam por diversos motivos. O centro tem objectivo principal que é a reintegração das crianças nos seios familiares. Das 7 as 14 as crianças encontram um espaço onde lavam a roupa, alimentam-se e aprendem. Segundo Isilda da Cristina Mazuzi, professora do centro, as aulas dependem muito dos alunos. «Há dias que estão bem e outros que não», afirmou.
O ensino de alfabetização vai da primeira a quinta classe. Quando a criança termina o ciclo volta a frequentar o primeiro. A falta do apoio do Ministério de Educação, em relação ao material didáctico, dificulta o ensino a progressão daquelas crianças. Segundo a fonte, o centro já reiterou muitas crianças as suas casas, mas as vezes voltam para o centro. «Nós tentamos explicar as crianças para não pensarem que o centro é uma família definitiva. Muitos», disse. A Lei de Promoção e Protecção dos Direitos da Criança, à semelhança do preconizado na Convenção dos Direitos da Criança e na Carta Africana dos Direitos e Bem-estar da Criança, enfatizam a questão da violência física e psicológica como um atentado contra a sobrevivência e bem-estar da criança. Apesar dos esforços em prol do bem-estar das crianças, a situação continua sombrio no país.


Nenhum comentário:

Postar um comentário